Pesquisador defende criminalização da homofobia para gerar punição no futebol brasileiro

Marcelo Carvalho, do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, defende o mesmo rigor adotado para o racismo

Nesta segunda-feira, em São Januário, o Observatório da Discriminação Racial no Futebol irá apresentar seu relatório anual sobre os casos de racismo, homofobia e xenofobia no esporte brasileiro. Marcelo Carvalho, um dos autores da pesquisa e coordenador do grupo, vê uma diferença essencial entre alguns casos que são punidos e outros que sequer são levados para julgamento no Brasil: a criminalização.

“O código está lá desde 2009, mas o fato da homofobia não estar na lei brasileira, isso acaba passando batido. O racismo gera punição porque é crime, e ai a CBF e o STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva) acabam sendo obrigados a punir. A partir da criminalização da homofobia é que vai passar a ter essa obrigação de punição”, disse Marcelo em entrevista ao Portal da Band se referindo ao artigo 243-G do CBJD (Código Brasileiro de Justiça Desportiva) que prevê punição em caso de descriminação.

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No relatório que será apresentado nesta segunda-feira, na sede do Vasco da Gama, no Rio de Janeiro, aparece apenas um incidente de homofobia, ocorrido durante uma partida entre Palmeiras e São Paulo no Campeonato Paulista de 2015, quando a torcida alviverde gritava “bicha” toda vez que o goleiro Rogério Ceni cobrava um tiro de meta. Apesar de essa ser uma prática comum hoje nos estádios brasileiros, Marcelo explica que só consta esse caso porque foi o único noticiado pela mídia, o que também ajuda na falta de punição.

“No relatório só aparece o caso do Rogério Ceni porque foi o único que a mídia noticiou. No final do relatório a gente coloca que ele é um grande exemplo do que acontece em vários estádios do Brasil, então a gente diz que aquele grito é recorrente, mas é pouco noticiado. O relatório usa a mídia para ser fornecedor da informação. A questão da homofobia a gente pergunta no final, quando isso vai ser encarado de maneira mais séria pelas autoridades no Brasil”, comentou.

O Observatório nasceu em maio de 2014 em Porto Alegre, depois do "Caso Tinga", ex-volante de Grêmio e Internacional que foi alvo de racismo. Marcelo decidiu ir em busca de dados sobre esses casos e descobriu que quase não havia, por isso criou o Observatório. Marcelo acredita que, assim como aconteceu com o racismo, a homofobia deve ser punida em breve, mas que deve demorar. Para acelerar o processo, ele cita como fundamental o envolvimento dos clubes.

“A própria CBF diz que acha que no Brasil essa punição não vai acontecer. O que a gente acredita é que assim como aconteceu no racismo, que também passava despercebido, sem punição, ai depois, em 2009 a Fifa começa a punir e isso vira uma regra, tanto que entra no CBJD. Eu acredito que tenha essa mesmo efeito com a homofobia, mas acho que vai demorar um pouco. A gente já fez uma ação com o Inter aqui no Rio Grande do Sul, na verdade foi o clube que já nos recebeu. A gente teve contato com diversos outros clubes e sempre foi na linha de “ah, vamos fazer alguma coisa”, mas nunca de fato aconteceu alguma coisa. Com o Inter a gente fez um jogo contra a intolerância e agora no Vasco vamos fazer o lançamento do relatório. É muito importante os clubes apoiarem isso. O Vasco teve uma história de pioneirismo com negros no Brasil”, explicou sobre o contato com o time carioca para receber o lançamento do relatório, que acabou sendo aceito pela diretoria cruz-maltina.

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