Cineasta lança campanha por filme sobre rebeldes

Diretor Lúcio Branco busca financiamento coletivo para documentário sobre a amizade entre dois ex-craques do Botafogo: Afonsinho e Nei Conceição

Um enfrentou o poder dos cartolas e conseguiu a liberdade com o passe livre. O outro nunca se encaixou no modelo padrão do boleiro despolitizado e se tornou um dissidente da bola. Juntos, Afonsinho e Nei Conceição, amigos desde o juvenil do Botafogo, simbolizam uma época de um raro enfrentamento político no futebol, que ajudou a unir os dois em uma amizade que dura até hoje e que vai virar tema de filme.

“Barba, cabelo e bigode”, título que é uma referência ao visual dos dois, tem o diretor Lúcio Branco como mentor. Botafoguense, Branco teve a ideia ao ver um programa de TV que citava a atuação dos dois, e agora busca financiamento coletivo, por meio do site Catarse, para tocar o projeto.

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“Já conhecia bem a história do Afonsinho, e fui buscar mais sobre o Nei Conceição, que é menos famoso”, diz o diretor sobre o meia, que é personagem obrigatório em toda história contada por botafoguenses saudosos da fase entre o fim da década de 1960 e início da de 1970. "Craque" é o que normalmente se escuta sobre Nei quando se pergunta a quem o viu jogar.

Afonsinho mostra domínio de bola
Afonsinho mostra domínio de bola - Foto: Reprodução/Barba, cabelo e bigode


Em tempos de Bom Senso FC e aniversário de 50 anos do golpe militar, Afonsinho tem sido figura frequentemente revisitada. Atualmente morando na ilha de Paquetá, a uma hora de barca da Praça XV, no Rio de Janeiro, o ex-meia não chega a se isolar, mas prefere a calma do local, com as peladas do Trem da Alegria (seu time), sucedidas por cerveja e peixes na brasa. O importante é a reunião com amigos – Nei Conceição entre eles.

“Nós somos gêmeos sociais. Quando a gente trabalhava em projeto social, conhecemos dois meninos de rua que eram iguaizinhos a nós. É uma identificação que a gente tem. Nos conhecemos no juvenil do Botafogo e a gente gosta de estar junto, de jogar bola, de fazer as brincadeiras”, conta Afonsinho.


A ideia é justamente captar esse clima, deixando os dois – inclusive o aparentemente acanhado Nei – livres para contar histórias que ajudem a revelar os personagens do futebol brasileiro.

“O Afonsinho é o cara da esquerda revolucionária, filho de ferroviário. Já o Nei é o ‘bicho-grilo’”, define Branco, sem deixar de fazer uma observação sobre o segundo.

“Uma vez ele (Nei) foi a um programa de TV, em plena ditadura, e perguntaram quem era o ídolo dele no futebol. Ele conta que já imaginava que fariam a pergunta e que ele responderia Garrincha. Mas na hora ele mudou e respondeu Darcy Ribeiro”, conta. “Acho que ele, na verdade, não é hippie, era punk”, brinca o diretor sobre o craque, que teria recusado uma proposta do Palmeiras para não sair do Rio de Janeiro. O que significaria ficar longe dos amigos, das peladas e da música no “Cantinho do Vovô”, sítio dos Novos Baianos, do qual era assíduo.

A reportagem do Portal da Band tentou contato várias vezes com Nei Conceição, que não tem celular e só topou falar na presença do amigo Afonso – chamado assim, sem o diminutivo -, o que não aconteceu. Pessoas que já conviveram com Nei apontam até uma suposta timidez, não confirmada ir outros. “O Nei topou participar do filme comigo, e olha que ele era gago!”, diverte-se Afonsinho.

Nei Conceição em 1971 no Botafogo e atualmente
Nei Conceição (em pé) em 1971 no Botafogo e atualmente - Foto: Reprodução


“Esses caras veem o futebol de uma forma diferente. São avessos a esse mundo de fama da bola e já criticavam muitas coisas muito antes. O Sócrates é muito lembrado pela Democracia Corintiana, mas acho que o Afonsinho enfrentou um momento muito mais complicado, no auge da ditadura militar”, diz Branco sobre a fase em que o então meia do Botafogo brigou pelo passe livre, deixou a barba crescer e, hoje se sabe, passou a ser seguido pelo regime.

“Quero desmitificar os personagens. Não eram só boêmios, mas frequentavam círculos intelectuais, eram cultos, bem informados e politizados”, afirma.

Branco já filmou parte do filme, que estão na prévia publicada no Catarse, e agora tenta financiamento coletivo para conseguir os R$ 40 mil necessários para todo o documentário. Numa espécie de trailer misturada com campanha, os próprios protagonistas convocam os interessados em ajudar a contar a história dos "pais" do Bom Senso FC.

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