Aragão recorda fama por gol e divide 'mérito'

José de Assis Aragão, famoso por marcar contra o Santos, lembra com bom humor do lance e diz que ganhou dinheiro em programas de TV

A carreira do árbitro José de Assis Aragão é marcada por um gol. Não um que ele tenha anulado, ou outro irregular validado em uma grande decisão. Mas por um que ele próprio marcou, há exatos 30 anos – na tarde do dia 9 de outubro de 1983. Jogavam Palmeiras e Santos no Morumbi, pelo Campeonato Paulista. O Peixe vencia por 2 a 1 até os 47 minutos do segundo tempo, quando o ponta-direita Jorginho aproveitou um rebote e chutou mal. Antes de a bola sair, porém, tocou no árbitro e entrou.

“Até hoje quando encontro o Marola (goleiro do Santos), brinco com ele: ‘Tá vendo? Te fiz um gol’”, conta Aragão, que garante viver em paz com os torcedores do Peixe.

“E sou sempre bem recebido pelos santistas. Tudo na brincadeira. Ninguém guarda mágoa. Se fosse numa decisão, acho que seria diferente. Mas valia nada, era só pela rivalidade mesmo. E se alguém brinca comigo, respondo: ‘Treinei bem’”, diz, aos risos.

Aragão divide a responsabilidade com o goleiro do Santos. “Ele, por desconhecer a regra, não se esforçou para fazer a defesa, achando que o gol não valeria. O que eu podia fazer? Foi um acidente de trabalho”, afirma.

Paulo Isidoro ameaça

O lance foi seguido de muito protesto pelo lado santista. Muitos jogadores reclamaram, cada um do seu jeito. Pita, mais sereno, pouco falou, lembra o árbitro. Serginho Chulapa, amigo de “peladas”, famoso pelo temperamento explosivo, manteve a calma, mas não deixou de falar com Aragão. “Ele só repetia: ‘anule o gol, anule o gol’”, lembra.

Bem diferente de Paulo Isidoro. O volante saiu de campo furioso, criticando a atuação e o posicionamento do árbitro – dentro da pequena área, ao lado da trave.

“Todo mundo coloca ele como um bom árbitro, mas eu acho uma porcaria. Esse cara não pode mais apitar jogo do Santos. Toda vez ele prejudica a gente. Você vai dar um soco num cara desse, fica um ano parado, mas quando estiver parando, tem que pegar um cara desses”, esbravejou Isidoro, “jurando” Aragão. Não há notícia de que a ameaça tenha se consumado.

“Ele era o mais bravo, mas por puro desconhecimento da regra. A reclamação dele não tinha consistência alguma”, defende-se Aragão, que, 30 anos depois, explica o posicionamento.

Vendo de perto

“Era o último lance. Para não deixar sair uma falta, fui ver de perto. E também porque poderia sair um gol olímpico. No chute, eu tentei pular a bola, mas não deu”, narra o árbitro.

No dia seguinte, o desgosto por causa do lance era tanto que Aragão decidiu calar o próprio apito. Redigiu uma carta de demissão, levou à sede da Federação Paulista de Futebol e entregou nas mãos do então presidente da entidade, José Maria Marin, atual mandatário da CBF.

“Ele pegou o papel, rasgou na minha frente e ainda me escalou para um jogo de quarta-feira, um Corinthians x Santo André”, conta o juiz, que continuou apitando até 1990. Entre o pedido de demissão negado e a aposentadoria, chegou a trabalhar até em final de Libertadores. “Só não estive em uma Copa do Mundo”, afirma.

Fama e dinheiro

O episódio valeu fama nacional ao árbitro, que viajou o Brasil inteiro dando entrevistas. “Faturei uma boa grana com cachê”, recorda-se, saudoso. “Foi a melhor coisa que aconteceu, todo mundo lembra”, brinca.

Depois de uma fase como administrador do Pacembu, quando chegou a ser alvo de suspeitas de irregularidades, e atuar como presidente da Associação Nacional dos Árbitos de Futebol, entre outras atividades, Aragão atualmente trabalha na área comercial de uma loja de material esportivo de São Paulo. “Até hoje sou reconhecido na rua, mas ninguém protesta”, garante o juiz, que nega receber pedidos de autógrafos de palmeirenses. “Gosto de todos os times”, garante Aragão, que segue trabalhando com o futebol.

“Atuo como delegado de muitas partidas do Brasileirão. Mas hoje é muito fácil apitar. É uma ‘teta’”, brinca. “Na minha época nós éramos três. Agora são cinco só no campo. E ainda tem vários recursos. Fora o juiz reserva, delegado, analista...”, enumera Aragão, antes de completar: “E ainda assim os erros continuam. Não tem milagre”.

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